quarta-feira, 28 de agosto de 2024

SANTO DO DIA: Martírio de São João Batista

 


Deste grande profeta posto entre o Antigo e o Novo Testamento é conhecida a festa no dia 24 de junho: aquele é o dia do nascimento, celebrado com grande solenidade, pois é a aurora da vinda de Cristo; hoje é o dia de sua morte por degolação.

João Batista é o protótipo do profeta, o homem possuído totalmente pela missão de pregar a Palavra, de anunciar aos homens a vontade divina. Nada pode demovê-lo desta missão, nada intimidá-lo. O próprio Cristo apresentou sua figura como o símbolo vivo da face ascética da religião.

Certo dia, haviam chegado mensageiros de João Batista propondo a Jesus uma dúvida sobre o Messias. Tendo eles partido, começou Jesus a falar de João: “Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Mas que fostes ver? Um homem vestido de roupas delicadas? Mas os que vestem roupas delicadas encontram-se nos palácios dos reis. Mas que foste ver? Um profeta? Sim, eu vos digo, é mais do que um profeta… Na verdade vos digo, dentre os nascidos de mulher nenhum foi maior que João Batista” (Mt 11,7-11).

A missão de João Batista foi a de precursor do Messias; ele deu testemunho de Cristo pelas altas virtudes, pelas rigorosas penitências, pela palavra vigorosa em denunciar os vícios, as injustiças, animando a sociedade judaica a converter-se a Deus na sinceridade do coração.

À testa do governo da Galileia estava Herodes, filho daquele Herodes, chamado o Grande, criminoso e déspota, que viveu ao tempo do nascimento de Cristo. Herodes vivia escandalosamente, tendo raptado Herodíades, esposa de seu irmão Filipe. Essa união ilícita era motivo de grave escândalo no meio judaico. Não havia quem se sentisse com coragem de censurar o monarca. João Batista não podia, como profeta, ficar omisso e declarou publicamente e com toda franqueza: “Não te é lícito viver com a mulher de teu irmão”. Herodíades, a mulher escandalosa, não aturou esta censura e prometeu vingança. Conseguiu que Herodes mandasse encarcerar João Batista, apesar de o monarca dedicar, talvez por superstição, grande veneração ao profeta João Batista.

A morte de João esteve à altura de sua alta missão. O evangelista São Marcos nos descreve este martírio: “Chegou o dia propício. Herodes, por ocasião de seu aniversário, ofereceu um banquete a seus magnatas e às grandes personalidades da Galileia. A filha de Herodíades entrou e dançou, agradando a Herodes e aos convivas. Então, o rei disse à moça: ‘Pede-me o que bem quiseres e te darei, mesmo que seja a metade do meu reino’. Ela saiu e perguntou à mãe: ‘O que é que eu peço?’ Ela respondeu: ‘A cabeça de João Batista’. Voltando logo à presença do rei fez o pedido: ‘Quero que agora mesmo me dê num prato a cabeça de João Batista’. O rei ficou profundamente triste. Mas, por causa do juramento que fizera e dos convivas, não quis deixar de atender-lhe. E, imediatamente, o rei mandou um executor, com ordens de trazer a cabeça de João. Ele foi e decapitou João na prisão e trouxe a sua cabeça num prato e deu-a à menina e esta a entregou à sua mãe. Os discípulos de João souberam disso, foram lá, pegaram o corpo e o colocaram num túmulo” (Mc 6,21-26).

Jesus chamou João Batista lâmpada ardente e luminosa: assim foi ele na vida e muito mais no testemunho glorioso de seu sangue.

 

Do livro: “O Santo do Dia”, de Dom Servilio Conti, I.M.C.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

SANTO DO DIA: Santo Agostinho

 


Ontem a mãe Mônica, hoje o filho Agostinho: sois santos! Não existiria o segundo, se sua mãe não tivesse sido santa, gerando o filho à fé pelas orações e pelas lágrimas!

Aurélio Agostinho nasceu em Tagaste, hoje região da Argélia, norte da África, em 334, filho de Mônica e Patrícia: ela, santa esposa e mãe, ele pagão rude e violento. Agostinho teve uma mocidade irrequieta, agitada pelas paixões e desvios doutrinais. Inteligência eleita, aguda, penetrante, depois dos desmandos da juventude, procurou a verdade e a redenção do seu espírito irrequieto, através das filosofias, mas debalde. Formou-se brilhantemente em retórica e, ainda jovem, escrevia ensaios de poesia e filosofia…

Procurando maior glória, deixou Cartago, cidade de seus estudos, e foi para a capital do Império Romano, abrindo uma escola de retórica, mas ficou por pouco tempo, porque teve a nomeação oficial de professor de retórica e gramática em Milão. Aí, atraído pela fama do grande bispo Ambrósio, poeta e orador, começou a assistir aos sermões do santo bispo. Do apreço à forma literária da pregação, Agostinho passa ao apreço pelo conteúdo. Converte-se, recebe a instrução e é batizado por Santo Ambrósio, na Páscoa de 387. Tinha trinta e três anos e chegara ao término de um longo e laborioso processo de conversão, para o qual, além de sua sede de verdade, tiveram um papel importante as preces e as lágrimas de sua santa mãe.

O próprio Agostinho descreve o toque final da graça de Deus que o levou à conversão: “Enquanto, chorando debaixo de uma figueira, debatia-me entre sentimentos e forças opostas… de súbito, ouço uma voz que cantava e repetia muitas vezes: “Toma e lê, toma e lê…” Agarrei o livro (carta aos Romanos) e li para mim aquele capítulo que primeiro se apresentou aos meus olhos e eram estas as palavras: “Caminhemos como de dia; nada de desonestidades, nem dissoluções; nada de contendas nem de ciúmes; ao contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não procureis satisfazer os desejos da carne’ (Rm 13,13s). Não quis ler mais nem era necessário; pois penetrou-me no coração uma espécie de luz serena e todas as trevas de minhas dúvidas fugiram” (Confissões, Cap. X).

Com ele foi batizado também o filho Adeodato; jovem inteligentíssimo, que faleceu aos 15 anos de idade, com grande dor de Agostinho. Decidiu então voltar para sua pátria, a África, com sua mãe Mônica, que faleceu na viagem perto de Roma. Na África, com alguns amigos, iniciou uma vida comunitária, entregue à meditação, ao estudo da Bíblia, à oração e obras de caridade.

Mas, no dizer do Evangelho, a luz não pode ficar oculta. Agostinho foi procurado pelo bispo de Hipona, a fim de que o ajudasse na pregação, pois o bispo era velho e doente. Foi ordenado sacerdote e, pouco depois, com a morte do bispo, Agostinho foi aclamado pelo povo como sucessor.

Agostinho, como pastor da diocese por 34 anos, revelou-se um bispo zeloso, vigilante, iluminado, pai dos pobres, mestre insuperável de espiritualidade, escritor fecundíssimo em todos os assuntos teológicos, defensor infatigável da ortodoxia.

Sua ação e influência pastoral não se limitou à pequena cidade portuária de que era bispo, mas rompeu as fronteiras, tornando-se uma espécie de oráculo de sabedoria teológica que a civilização antiga presenteou ao cristianismo. Ele foi definido o mais profundo pensador entre os escritores do mundo antigo, e, talvez, o gênio metafísico mais portentoso que viram os tempos. Sua linguagem apaixonada e cálida, expressiva e pessoal, seduz, convence, comove. Seu pensamento iluminou quase todos os pensadores dos séculos posteriores. Entre suas obras imortais, emerge sua autobiografia Confissões e A Cidade de Deus, que é uma filosofia da história vista à luz da mensagem cristã.

Santo agostinho morreu aos 28 de agosto de 430 com 76 anos de idade, amargurado ao ver os bárbaros sitiarem sua cidade episcopal.

 

Do livro: “O Santo do Dia”, de Dom Servilio Conti, I.M.C.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

SANTO DO DIA: Santa Mônica

 


Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho, foi ao longo dos séculos o tipo da mãe cristã; a mãe forte, que por sua resistência, suas lágrimas e orações conseguiu a conversão de um dos maiores pensadores e santos da Igreja e da humanidade. O próprio Santo Agostinho diz de sua mãe: “que pela carne, concebeu seu filho para a vida temporal mas, pela fé e o coração, o fez nascer para a vida eterna”.

Santa Mônica nasceu em Tagaste, norte da África, por volta de 332, de família cristã.

Tendo chegado à idade própria para o casamento, foi dada pelos pais por esposa a um cidadão de Tagaste de nome Patrício, jovem pagão, rude. O caráter indômito do marido foi para Mônica fonte de sofrimentos e provações mais duras. Mônica sofreu tudo com a maior paciência e mansidão, encontrando consolação nas orações que, fervorosas, elevava ao céu pela conversão do esposo. Deus recompensou esta dedicação e estas orações, podendo ela ver a conversão sincera do marido, que recebeu o batismo.

Do seu matrimônio, Mônica teve dois filhos, Agostinho e Navígio, e uma filha, Perpétua, que se tornou religiosa. O filho mais velho, Agostinho, foi sua grande preocupação, fonte de amarguras, motivo de lágrimas amargas.

Embora não lhe deixasse faltar bons conselhos e o educasse nos princípios da religião cristã, a vivacidade, a inconstância, o espírito de insubordinação de Agostinho induziram a mãe Mônica a protelar-lhe o batismo, com receio que ficasse uma graça profanada. De fato, Agostinho, morto o pai, aos dezessete anos, afastou-se de casa por motivos de estudos, tomando o caminho dos vícios. O coração de Mônica sofreu terrivelmente com as notícias dos desmandos do filho: redobrou suas orações, e certo dia, pedindo conselho e consolação junto a um bispo, este a animou dizendo: “Continue a rezar, pois é impossível que se perca um filho de tantas lágrimas”.

Agostinho tornou-se um brilhante professor de retórica em Cartago. Mas, espírito irrequieto, se afiliou à seita herética dos maniqueus. Procurando fugir das instâncias da mãe aflita, às escondidas, toma o navio rumando para Roma, e de Roma para Milão, onde consegue o honroso cargo de professor oficial de retórica.

Mônica em seu afeto de mãe, e mãe cristã, que deseja a todo custo recuperar o filho, viaja da África para a Itália à procura do filho, encontrando-o em Milão, onde, aos poucos, termina seu sofrimento. De fato, em Milão, Agostinho, inicialmente por curiosidade retórica, depois por interesse espiritual, tinha-se tornado frequentador dos magníficos sermões de santo Ambrósio. Aí se deu sua conversão: recebeu o batismo com seu filho Adeodato e o amigo inseparável, Alípio. Mônica colhia os frutos de suas orações e de suas lágrimas.

Mãe e filho decidiram voltar para a terra natal, a África, mas chegando ao porto de Óstia, perto de Roma, Mônica adoeceu e veio a falecer. Agostinho imortalizou estes últimos momentos, escrevendo: “Próximo já do dia em que ela ia sair desta vida, sucedeu que nos encontrássemos sozinhos ela e eu, apoiados a uma janela, cuja vista dava para o jardim interior da casa. Era em Óstia, onde apartados da multidão, após o cansaço de uma longa viagem, retemperávamos as forças para embarcarmos. Falávamos a sós, muito docemente excedendo o passado e ocupando-nos do futuro, qual seria a vida eterna dos santos, que nunca os olhos viram, nunca o ouvido ouvi, nem o coração do homem imaginou. Nossos corações abriam-se ansiosos para a corrente celeste da fonte da vida divina”. Naquele momento, Mônica entregou sua bela alma a Deus. Corri o ano 387. Ela contava 56 anos de idade.

Seu corpo atualmente se conserva na Igreja de Santo Agostinho em Roma, cuja festa ocorre amanhã.

Do livro: “O Santo do Dia”, de Dom Servilio Conti, I.M.C.

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

21º DTC - Vós também vos quereis ir embora?

 


A liturgia do 21º Domingo do Tempo Comum fala-nos de opções. Recorda-nos que a nossa existência pode ser gasta buscando valores efêmeros e passageiros, ou a apostando nos valores eternos que nos conduzem à vida definitiva, à realização plena. Cada homem e cada mulher têm, dia a dia, de fazer a sua escolha.

Na primeira leitura, Josué convida as tribos de Israel reunidas em Siquém a escolherem entre ‘servir o Senhor’ e servir outros deuses. O povo escolhe claramente ‘servir o Senhor’, pois viu, na história recente da libertação do Egito e da caminhada pelo deserto, como só Jahweh pode proporcionar ao seu povo a vida, a liberdade, o bem-estar e a paz.

São Paulo, na segunda leitura, diz aos irmãos de Éfeso que a opção por Cristo tem consequências também no nível da relação familiar. Para o seguidor de Jesus, o espaço da relação familiar tem de ser o lugar onde se manifestam os valores de Jesus, os valores do Reino. Com a sua partilha de amor, com a sua união, com a sua comunhão de vida, o casal cristão é chamado a ser sinal e reflexo da união de Cristo com a sua Igreja. Assim como a mulher deve ser submissa, por amor, ao seu marido, a Igreja tem de ser submissa a Cristo. Ora, se marido e mulher são uma só carne desde o matrimônio, a Igreja e Jesus também formam essa unidade, onde a cabeça cuida dos membros com zelo e carinho, pois visa a edificação do corpo.

E o Evangelho coloca diante dos nossos olhos dois grupos de discípulos, com opções diversas diante da proposta de Jesus. Um dos grupos, prisioneiro da lógica do mundo, tem como prioridade os bens materiais, o poder, a ambição e a glória; por isso, recusa a proposta de Jesus. Outro grupo, aberto à ação de Deus e do Espírito, está disponível para seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida; os membros deste grupo sabem que só Jesus tem palavras de vida eterna. É este último grupo que é proposto como modelo aos cristãos de todos os tempos.

Por que muitos discípulos voltaram (e voltam) atrás em sua opção por Jesus? Por que muitos que abraçaram a fé, foram batizados, comungaram da Eucaristia, em algum momento afastam-se do caminho? A resposta é simples: vaidade. O Evangelho de Cristo provoca e compromete. É um apelo a uma mudança radical de vida onde livremente optamos, como Josué: “Eu e minha casa serviremos ao Senhor”. A pergunta que Jesus faz aos apóstolos também é repetida a cada um de nós hoje: “E vós, também vos quereis ir embora?”. É fácil de ser discípulos diante das belas parábolas ou dos milagres. É difícil manter-se fiel mediante a uma mudança permeada pela cruz. Quando escolhemos o verdadeiro Evangelho, deixamos o Espírito de Deus nos purificar com o ‘banho da água unida à palavra’. Somos submissos ao verdadeiro marido da Igreja e como membros desse corpo, somos alimentados pelo pão da Eucaristia.

1ª Leitura: Js 24,1-2a.15-17,18b

2ª Leitura: Ef 5,21-32

Evangelho: Jo 6,60-69

Salmo

"Provai e vede quão suave é o Senhor!"

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Solenidade da Assunção de Nossa Senhora

 


Nesse final de semana celebramos a Assunção de Nossa Senhora. Tal celebração, para nós católicos, é dogma de fé. Foi definido pelo papa Pio XII em 1950 através da Constituição Apostólica Munificentissimus Deus que solenemente declarou: “A Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, terminando o curso da vida terrestre foi assunta em corpo e alma à glória celestial”. Isto significa que o Senhor reconheceu e recompensou com antecipada glorificação todos os méritos da Mãe, principalmente alcançados em meio às aceitações e oferecimentos das dores.

A primeira leitura, retirada do livro do Apocalipse traz visões expressas em linguagem codificada. Elas revelam que Deus arranca os seus fiéis de todas as formas de morte. Por transposição, a visão do sinal grandioso pode ser aplicada a Maria. A mulher também pode representar a Igreja, novo Israel, sugerido pelo número doze (as estrelas). O seu nascimento é o do batismo que deve dar à terra uma nova humanidade. O dragão é o perseguidor, que põe tudo em ação para destruir este recém-nascido. Mas o destruidor não terá a última palavra, pois o poder de Deus está em ação para proteger o seu Filho.

A Assunção é uma forma privilegiada de Ressurreição. Tem a sua origem na Páscoa de Jesus e manifesta a emergência de uma nova humanidade, em que Cristo é a cabeça, como novo Adão. É o que despreendemos da segunda leitura, da primeira carta de são Paulo aos Coríntios. O apóstolo apresenta uma espécie de genealogia da ressurreição e uma ordem de prioridade na participação neste grande mistério. O primeiro é Jesus, que é o princípio de uma nova humanidade. Eis porque o apóstolo o designa como um novo Adão, mas que se distingue absolutamente do primeiro, que tinha levado a humanidade à morte, ao passo que o novo Adão conduz aqueles que o seguem para a vida.

E o Evangelho de são Lucas nos traz o episódio de Maria visitando sua prima Isabel e cantando o Magnificat. Aprendemos assim a rezar por Maria, com Maria e como Maria. Rezar por Maria é pedir que ela reze por nós: “Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte!”. A sua intervenção maternal em Caná resume bem a sua intercessão em nosso favor. Ela é nossa “advogada” e diz-nos: “Fazei tudo o que Ele vos disser!” Rezar com Maria, mais que nos ajoelharmos diante dela, é ajoelhar-se ao seu lado para nos juntarmos à sua oração. Ela acompanha-nos e guia-nos na nossa caminhada junto de Deus. Rezar como Maria é fazer eco ao canto Magnificat. A nossa oração torna-se ação de graças pelas obras de Deus em nossas vidas. Pomos os nossos passos nos passos de Maria para dizer com ela na confiança: “que tudo seja feito segundo a tua Palavra, Senhor!”

 

1ª Leitura: Ap 11,19a; 12,1.3-6a.10ab

2ª Leitura: 1Cor 15,20-27ª

Evangelho: Lc 1,39-56

Salmo:

“À vossa direita se encontra a rainha, com veste esplendente de ouro de Ofir”.


sexta-feira, 9 de agosto de 2024

19º Domingo do Tempo Comum

 


Nesse 19º Domingo do Tempo Comum temos uma continuação da reflexão nos domingos anteriores onde constatamos que existe um pão que poderá alimentar nossos corações de angústia e outro pão que poderá nos alimentar com a paz. Um é o pão da reclamação, da murmuração que nos torna angustiados, outro o Pão da Vida, o pão que dá vida ao mundo.

Na primeira leitura encontramos o profeta Elias murmurando contra Deus e simplesmente ‘jogando a toalha’ diante da missão a ele confiada por Deus. Deita-se debaixo de um junípero esperando a morte. Um anjo traz pão assado e um jarro de água encorajando-o a levantar-se e comer. Elias, após a refeição volta a dormir. Novamente o anjo aparece, oferece-lhe o alimento e diz que o profeta ainda tem um longo caminho a percorrer. Elias toma o alimento que dá energia e força para continuar a caminhada.

A segunda leitura apresenta conselhos dados por são Paulo à comunidade de Éfeso. Tais indicações visam uma aproximação do cristão ao coração do Pai que é amor. Não é um amor interesseiro, que se beneficia de forma utilitarista dos irmãos, mas um amor capaz de esvaziar-se, de dar-se plenamente pela vida do outro. Por isso, nada que divida a comunidade pode ter a última palavra.

As leituras apresentam um quadro psicológico bem próximo da realidade social de nossos dias. Convivemos com pessoas desanimadas, incapazes de prosseguir o caminho, entregando os pontos e perdendo de vista o objetivo da própria vida, por não alimentarem seus corações com o pão vivo. As leituras acenam ainda para os infelizes, aqueles que vivem profundamente mergulhados na angústia e aqueles que vivem amargurados, irritados, enraivecidos, e tratam os outros com gritarias e injúrias. Reflexo evidente de uma vida marcada pelo sofrimento interior. Um quadro que, infelizmente, invade nossas famílias, escolas, locais de trabalho, alimentando corações com um ‘pão de infelicidade’.

Com tais características, facilmente avaliamos que convivemos com pessoas que perderam a paz interior e, por isso, são incapazes de conviver consigo mesmas e com os outros. São pessoas cansadas que, a exemplo de Elias, jogam-se por terra e desejam a morte, porque viver tornou-se um sofrimento. Este quadro é, perigosamente, alimentado com um pão que podemos denominar de ‘pão da reclamação’. Quanto mais nossos corações se alimentam de reclamações, mais a insatisfação toma conta da gente, menos paz interior e menos alegria para viver.

No Evangelho, quem aparece murmurando são os judeus que não conseguem ver em Jesus o verdadeiro Messias prometido. Jesus é o filho de José, nós o conhecemos. Como pode ter descido do céu? Jesus revela-se como o pão da vida, capaz de alimentar nossos corações com uma paz que conduz a uma vida plena e eterna. Não é um pão passageiro, sujeito ao tempo e as condições físicas. Sua carne é alimento que dá vida ao mundo.

Bem diferente é o resultado de quem se alimenta com o Pão da Vida, oferecido por Jesus, através de sua Palavra e, mais concretamente, pela doação de sua própria carne, de sua própria Vida; Vida capaz de alimentar um novo modo de viver no mundo. Diferentemente daquele pão que provoca angústia, o Pão da Vida promove a bondade, a compaixão, o perdão e, nos torna imitadores de Deus, incapazes de contristar o Espírito Santo que habita em nós. Acontece aquilo que Jesus evoca no Evangelho, quando lembra aos judeus que todos serão ‘discípulos de Deus’, todos viverão e se alimentarão com o Espírito Santo de Deus. Assim é o ‘Pão Vivo’, o ‘Pão da Vida’, o ‘Pão para a vida’. Um alimento que pacifica os corações e atrai homens e mulheres para que se alimentem deste pão que é dado por Deus e vivam deixando-se inspirar pelo Espírito Santo.

Existe, contudo, uma condição para se alimentar deste pão: crer; ter fé. No Evangelho, Jesus sublinha a iniciativa do Pai no processo da fé, quando diz: ‘ninguém pode vir a mim, se o Pai que o enviou não o atrai’. O mesmo verbo ‘atrair’ encontra-se em outra passagem do Evangelho de João, quando Jesus promete que, na Cruz, atrairá todos a Ele (Jo 12,32). A cruz é o local onde Jesus doa concretamente sua vida, num gesto extremo de amor e misericórdia. A pedagogia da fé, portanto, tem a iniciativa do Pai e alcança seu ápice na adesão a Cristo, alimentando-se da ‘carne de Cristo’, pois quem nele crer e se alimentar deste pão terá a vida eterna.


 Primeira Leitura: 1Rs 19,4-8

Segunda Leitura: Ef 4,30-5,2

Evangelho: Jo 6,41-51

 Salmo:

“Provai e vede quão suave é o Senhor!”

sábado, 3 de agosto de 2024

18º Domingo do Tempo Comum

 


Querida família, estamos vivendo o 18º domingo do tempo comum. Temos na liturgia uma bela continuação da reflexão sobre a eucaristia.

Na primeira leitura, do livro do Êxodo, vemos a comunidade dos filhos de Israel murmurando contra Moisés e Aarão, no deserto. O passado como escravo do Egito parecia melhor. A liberdade, através da luta, não parecia mais interessar. Manter-se fiel ao projeto original agora tornara-se um desafio. Às vezes, manter a fidelidade ao amor de Deus, para muitos também torna-se um dilema, pois exige esforço e comprometimento. Deus nos quer inteiros, e não apenas uma parte. Nem sempre nos dá aquilo que pedimos e começamos a murmurar. Interessante a atitude de Deus diante da murmuração: o pão caiu do céu, mas foi preciso buscá-lo. O mesmo acontece na eucaristia. Deus vem até nós num pedaço de pão. É preciso, porém, ir ao encontro d’Ele. Ou seja,  quer o nosso comprometimento.

E para mantermo-nos fiéis, a segunda leitura, retirada da carta de São Paulo aos Efésios nos dá um conselho: ‘Revesti o homem novo’. Deus quer criaturas novas e por isso é necessário renovar o espírito e a mentalidade. Quem tem de fato um encontro pessoal com Cristo na eucaristia não pode mais continuar a viver murmurando como o povo de Israel. Revestir-se significa posicionar-se diante da vida como alguém que não está só, como alguém que sabe-se amado pelo Pai. É um homem novo!

E no evangelho de São João, Jesus deixa claro que nossa busca interior deve ser sincero sinal de amor por Ele e não pelos milagres que ele faz. O povo estava impressionado com a multiplicação dos pães. Jesus através do milagre sacia a fome do corpo. Mas o que importa é a sede do espírito por eternidade. Esse é o alimento que permanece até a vida eterna. O extraordinário aponta para obra de Deus. Devemos acreditar não nos sinais, mas naquele que o Pai enviou. Diante do pedido do povo: ‘dá-nos sempre desse pão’, Jesus revela-se como o Pão da vida: ‘Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede’.

Diante das dificuldades da vida, ao invés de murmurarmos, busquemos o pão da vida que mata não apenas a fome do corpo mas a sede da alma. Como criaturas novas, amemos Deus não por causa dos sinais, mas porque Ele é o nosso Pai e não deixa nada nos faltar.

 

Primeira Leitura: Ex 16,2-4.12-15

Segunda Leitura: Ef 4,17.20-24

Evangelho: Jo 6,24-35

 

Salmo

“O Senhor deu a comer o pão do céu.”

Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria

  Nesse final de semana celebramos a Assunção de Nossa Senhora. Tal celebração, para nós católicos, é dogma de fé. Foi definido pelo papa Pi...