A liturgia do 3º domingo
do Tempo Pascal recorda-nos que a comunidade cristã tem por missão testemunhar
e concretizar o projeto libertador que Jesus iniciou; e que Jesus, vivo e
ressuscitado, acompanhará sempre a sua Igreja em sua missão, vivificando-a com
a sua presença e orientando-a com a sua Palavra.
A primeira leitura
apresenta-nos o testemunho que a comunidade de Jerusalém dá de Jesus ressuscitado.
Embora o mundo se oponha ao projeto libertador de Jesus testemunhado pelos
discípulos, o cristão deve antes obedecer a Deus do que aos homens. A questão
principal gira em torno do confronto entre o cristianismo nascente e as autoridades
judaicas. A frase de Pedro: “deve obedecer-se antes a Deus do que aos homens”
(vers. 29) deve ser vista como o tema central; define a atitude que os cristãos
são convidados a assumir diante da oposição do mundo. A oposição humana põe em
relevo a realidade sobre humana da mensagem, a sua força que não pode ser
detida e o dinamismo dessa comunidade animada pelo Espírito. Se Jesus encontrou
oponentes e morreu na cruz, é natural que os apóstolos, fiéis a Jesus e ao seu
projeto, se defrontem com a oposição desses mesmos que mataram Jesus. No entanto,
os verdadeiros seguidores do projeto de Jesus – animados pelo Espírito – estão mais
preocupados com a fidelidade ao ‘caminho’ de Jesus, do que às ordens ou
interesses dos homens – mesmo que sejam os que mandam no mundo.”
A segunda leitura,
apresenta Jesus, o “Cordeiro” imolado que venceu a morte e que trouxe aos
homens a libertação definitiva; em contexto litúrgico, o autor põe a criação
inteira manifestar diante do “Cordeiro” vitorioso a sua alegria e o seu louvor.
O símbolo do “Cordeiro” é um símbolo com uma grande densidade teológica, que
concentra e evoca três figuras: a do “Servo de Yahweh” – figura de imolação –
que, qual manso cordeiro é levado ao matadouro; a do “Cordeiro Pascal” – figura
de libertação – cujo sangue foi sinal eficaz de vitória sobre a escravidão; e a
do “Cordeiro Apocalíptico” – figura de poder real – vencedor da morte (esta
imagem é característica da literatura apocalíptica, onde aparece um cordeiro
vencedor, guia do rebanho, dotado de poder e de autoridade real. O autor do
Apocalipse apresenta, portanto, de uma maneira original e sintética, a
plenitude do mistério de imolação, de libertação e de vitória régia, que corresponde
a Cristo morto, ressuscitado e glorificado.
E o Evangelho apresenta
os discípulos em missão, continuando o projeto libertador de Jesus; mas avisa
quer a ação dos discípulos só será coroada de êxito se eles souberem reconhecer
o Ressuscitado junto deles e se deixaram guiar pela sua Palavra. O texto está
claramente dividido em duas partes. Pedro toma a iniciativa de ir pescar. Os outros
seguem-no incondicionalmente. Aqui faz-se referência ao lugar proeminente que
Pedro ocupava na animação da Igreja primitiva. A pesca é feita durante a noite.
A noite é o tempo das trevas, da escuridão: significa a ausência de Jesus. O resultado
da ação dos discípulos (de noite, sem Jesus) é um fracasso (‘sem mim, nada
podeis fazer’ – Jo 15,5).
A chegada da manhã
(da luz) coincide com a presença de Jesus (Ele é a luz do mundo). Jesus não
está com eles no barco, mas sim em terra: ele não acompanha os discípulos na
pesca; a sua ação no mundo exerce-se por meio dos discípulos. Os discípulos
estão desorientados e decepcionados pelo fracasso da pesca. Jesus dá-lhes
indicações e as redes enchem-se de peixes.
Na segunda parte do
texto, Pedro confessa por três vezes o seu amor a Jesus (durante a paixão, o
mesmo discípulo negou Jesus por três vezes). A tríplice confissão de amor
pedida a Pedro por Jesus corresponde, portanto, a um convite a que ele mude
definitivamente a mentalidade. Pedro é convidado a perceber que, na comunidade
de Jesus, o valor fundamental é o amor; não existe verdadeira adesão a Jesus,
se não se estiver disposto a seguir esse caminho de amor e de entrega da vida
que Jesus percorreu. Só assim Pedro poderá seguir Jesus.
Ao mesmo tempo, Jesus
confia a Pedro a missão de presidir à comunidade e de animar; mas convida-o
também a perceber onde é que reside, a comunidade cristã, a verdadeira fonte da
autoridade: só quem ama muito e aceita a lógica do serviço e da doação da vida
poderá presidir à comunidade de Jesus.
PRIMEIRA LEITURA: At 5,27b-32.40b-41
SEGUNDA LEITURA: Ap 5,11-14
EVANGELHO: Jo 21,1-19
SALMO
“Eu vos exalto, ó
Senhor, porque vós me livrastes”.