sexta-feira, 1 de março de 2024

A espiritualidade do Dízimo

 


A principal função do dízimo é formar e aprofundar os laços dentro da comunidade. Pessoas, como sabemos, são seres distintos. Cada um é um, individuais e livres. O ser humano é um animal social, criado para viver em comunidade. Nela, alcançam a plenitude por meio da comunhão. A vida espiritual consiste num processo de união crescente com os irmãos. O dízimo é uma maneira de crescer em comunhão entre as pessoas, com Deus e pessoalmente.

O dízimo não se reduz a uma prática, um método eficiente. Ele contém uma espiritualidade. Refere-se a uma teologia de comunhão. O que isso quer dizer? Se você quer saber se realmente deseja uma vida cristã comunitária, veja se estás disposto a partilhar um pouco os seus bens. Se não, pode esquecer-se de qualquer coisa mais sublime. Comunidade começa na partilha dos bens.

Ao narrar a formação das primeiras comunidades cristãs após Pentecostes, São Lucas, nos Atos dos Apóstolos assim diz: “Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um. Unidos de coração frequentavam todos os dias o templo, partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia lhes ajuntava outros que estavam a caminho da salvação”. (At 2, 44-47). É importante lembrar que as primeiras comunidades achavam que Jesus voltaria logo. Por isso, a radicalidade na partilha dos bens. Mas o que mais chama a atenção é que a partilha está num contexto de comunhão e participação ativa na Sinagoga. A prática do amor se dava na comunidade, não havendo necessitados.

O dízimo é uma maneira de compartilhar os bens que corresponde excelentemente ao seu estado de vida como membros de uma paróquia, onde a vida comunitária é real. A construção de uma comunidade paroquial passa pelo zelo no que se refere ao bem-estar do próximo, inclusive neste aspecto mais concreto como as necessidades físicas, financeiras e outras. Mas não é o espiritual que deve descer para o nível financeiro. Pelo contrário, é o nível econômico que deve subir para fazer parte do espiritual.

Uma paróquia é um megacorpo. Ela cuida de si mesma através de uma partilha de bens, que a capacita a cuidar de todas as suas necessidades. Mas não deve reduzir-se a automanutenção. Uma comunidade que pratica o dízimo deve igualmente criar um ‘olho’ para o pobre, também para o doente, para os jovens, para os anciãos, para a formação, para toda uma gama de necessidades. Se a paróquia não é família, o dízimo é só uma forma de assistência social, talvez melhor feita pelo governo.

A comunidade tem uma cabeça, e, se conhecemos algo de São Paulo, sabemos que a Cabeça do Corpo é o próprio Cristo. Esse corpo não é pluralista no sentido de que cada um e cada uma pensa o que quiser sobre os mais diversos temas. A paróquia deixa de ser católica se cada um tem sua teologia particular. Isto é a essência do protestantismo e radicalmente outra do que a ideia católica, onde há uma doutrina que marca o povo. Esta doutrina pode ser refletida, discutida, avaliada, brigada, mas o compromisso principal é chegar à unidade de visão.

A espiritualidade do dízimo, é a espiritualidade de comunhão, de comunidade. Onde todos são chamados a partilha e a unidade na diversidade. Não somos iguais. Temos histórias e experiências diferentes. Mas a meta é o céu. A partilha ajuda-nos a pensar não apenas nas necessidades físicas da comunidade, mas também naqueles menos favorecidos. Da mesma forma, nos ensina a sermos gratos por tudo o que recebemos das mãos do próprio Deus.

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