
A liturgia do 16º Domingo do Tempo Comum nos lembra da importância de, antes de qualquer coisa, acolhermos Deus em nosso coração. Nenhum projeto inicia antes contemplarmos Ele em nós.
A primeira leitura fala de hospitalidade. Para o povo da Bíblia, acolher as pessoas é um ato de fé e de religião. Abraão é o homem ao qual Deus prometeu terra e descendência. Mas até aquele momento está sem filho e sem terra. Ele precisa aprender a ser dom para os outros a fim de acolher o dom da vida que Deus lhe faz através das pessoas que ele hospeda. Aqui encontramos uma ambiguidade: o trecho começa afirmando que o Senhor apareceu a Abraão junto ao carvalho de Mambré, mas o que Abraão vê são três homens parados perto dele. A conclusão mais latente é que quem acolhe pessoas está acolhendo o Deus que dá vida, uma vez que eles trazem consigo a esperança de paternidade à Abraão. Ele está sentado à entrada da tenda, no maior calor do dia. Não é hora de visitas, mas de descanso à sombra. Não obstante isso, ao ver os três homens, corre-lhes ao encontro, inclina-se diante deles e os convida a serem seus hóspedes, fazendo-se seu servo e servindo-lhes um banquete extraordinário. Os visitantes parecem conhecer a situação de Abraão e sua mulher. Conhecem inclusive o nome dela, sem que alguém o tenha revelado. Sabem que a esterilidade tornara aquele casal infeliz, sem perspectivas de vida. Ao acolher as pessoas nos momentos menos oportunos do dia, Abraão e Sara acolhem o dom da vida que vem de Deus: “No próximo ano eu voltarei a você. Então sua mulher já terá um filho”.
Na segunda leitura temos o retrato do discípulo de Jesus. Paulo está na prisão. O anúncio de Jesus Cristo lhe trouxe prisões, humilhações, torturas, difamações e sofrimentos sem conta. Tudo isso faz com que se sinta próximo de Jesus e de sua paixão. É o evangelizador que enfrenta com alegria os sofrimentos, a fim de que a comunidade cristã seja edificada. Paulo se apresenta como ministro da palavra para o bem da comunidade. Por meio dele, as comunidades cristãs ampliaram seus horizontes, abrindo-se aos não-judeus, entre os quais se encontram os cristãos colossenses.
E o Evangelho aparece a visita de Jesus à Marta, Maria e Lázaro. Marta faz as vezes de dona-de-casa. Acolhe Jesus e anda preocupada com as tarefas de casa, aumentadas pela visita do Mestre. E fica chateada porque Maria, sua irmã, não a ajuda no serviço. Maria, por sua vez, sentou-se aos pés do Senhor, e ficou escutando a sua palavra. A irmã de Marta é tipo do discípulo não pelo fato de nada fazer, e sim porque coloca, como base de seu discipulado, a acolhida da palavra de Deus que vem a ela na pessoa de Jesus. O episódio, pois, não afirma que é hora de fugir da ação pastoral para buscar refúgio na contemplação. Pelo contrário, afirma que a contemplação é sintonia com o mestre que está a caminho de Jerusalém. O contemplativo é o que busca descobrir, na oração e no discernimento, seu papel dentro do projeto de Deus, exatamente como agiu Jesus que foi, ao mesmo tempo, contemplativo, místico e construtor de uma nova sociedade.
O equívoco de Marta consistiu em querer demonstrar hospitalidade sem acolher o dom que Deus lhe fazia em jesus Cristo, a palavra de Deus. Maria, por sua vez, solidarizando-se com o Mestre a caminho de Jerusalém, descobriu o novo modo de fazer as coisas, ou seja, encontrou a raiz do discipulado que a torna participante do projeto de Deus. Deixou-se animar pela palavra que gera sociedade e história nova. Tornou-se discípula porque acolheu em sua casa o dom que Deus lhe fazia em Jesus.
1ª Leitura: Gn 18m1-10a
2ª Leitura: Cl 1,24-28
Evangelho: Lc 10,38-42
Salmo
“Senhor, quem morará em vossa casa?”